Renata Cruz Solci
http://www.renatacruz.net/
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
quarta-feira, 12 de junho de 2024
terça-feira, 4 de junho de 2024
Para sempre até
O todo: a floresta, o planeta, o universo. As partes: as árvores, as folhas, flores
e pequenos frutos, as sementes. Os fragmentos que caem e formam tapetes
de matéria orgânica, alimento para o solo. Respire fundo, entre na floresta, se
perca nela, olhe para cima: uma réstea do céu entre as copas das árvores mais
altas. Sinta o calor do sol filtrado pelas camadas e camadas de galhos, ramos,
arbustos, ninhos de pássaros, trepadeiras, bromélias, orquídeas. Olhe para
baixo, veja os pequenos pedaços, resquícios, retalhos, destroços. Fique de
joelhos, cheire a terra, as folhas, os resíduos que se dissolvem em umidade,
sustento para as raízes, seiva que sobe pelas árvores até chegar ao sol. A luz
e a penumbra, as noites plenas de respirações e mistérios.
Se o mundo cair em pedaços…
Em 2019, as artistas visuais Cláudia Tavares e Renata Cruz participaram de
uma residência artística na Vila de Paranapiacaba, São Paulo, no topo da
Serra do Mar, em plena Mata Atlântica. As leituras e conversas, a vivência e o
fazer artístico sempre renovado no registro das experiências – Renata com
desenhos e aquarelas, com palavras e colagens, com instalações; Cláudia
utilizando-se da fotografia, do vídeo e da apropriação de elementos da
natureza – serviram de semente para a elaboração deste projeto, selecionado
pela Galeria Ibeu em seu edital de 2020.
“O mundo cai em pedaços, mas só aos pedaços se constrói algo”, a frase da
escritora uruguaia Fernanda Trías descreve o fazer das artistas, inventando um
novo mundo com suas memórias e seus registros da floresta.
Os desenhos de Renata, de sua série “Para sempre um dia”, saltam das
paredes e se unem, arquitetando “árvores”, criando caminhos entre os quais o
espectador pode passear e fazer suas descobertas. As fotografias e os objetos
que Cláudia recolhe e ressignifica se espalham pelas paredes, como corpos
celestes ancorados a um horizonte de palavras, os “até”.
As artistas trouxeram vívidas, intensas, em seus corpos e em seus trabalhos,
as memórias da imersão na Mata Atlântica, a sensação da perenidade do
ecossistema e da regularidade de seus ciclos, mesmo sob a ameaça crescente
do homem-civilizado-predador. São memórias que persistem e são
reencontradas por elas em seus afazeres cotidianos, em suas cidades –
Cláudia, no Rio de Janeiro; Renata, em São Paulo e Santos – em suas casas e
ateliês, como uma realidade paralela em meio ao cinza das metrópoles e, mais
que isso, como uma visão de esperança.
Com sensibilidade e esmero, as artistas nos convidam a entrar neste mundo
que construíram e que respira, vivo, no espaço expositivo – e é interessante
lembrar que a galeria fica a uma pequena caminhada de trilhas que nos levam
à Floresta da Tijuca, a terceira maior floresta urbana do mundo, totalmente
reconstruída no século XIX após ser arrasada pela exploração agrícola sem
planejamento.
Talvez ainda seja possível?, as artistas nos perguntam e nos desafiam: a partir
destes fragmentos trazidos da floresta em suas bagagens e em suas memórias
e que “teceram na relação”, na vivência – que cada um de nós possa
(re)construir o todo, a floresta, o planeta, os infinitos universos.
Jozias Benedicto
Escritor, artista visual e curador
Abril de 2024




























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