quarta-feira, 12 de junho de 2024


Grandes expedições à amazônia brasileira participa da exposição Devir Paisagem (com Cristina Ataide, Liana Nigri, Luzia Simons, Marcelo Moscheta, Wirawasu, Moara Tupinambá, Patrícia Barbara (Boneca Conceitual), Pedro Vaz, Renata Pandovan, Tatiana Arocha, Vera Mantero, e curadoria de Lilian Fraiji) no Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, em Évora, Portugal, em junho de 2024. Trata-se de uma colagem sobre páginas recortadas dos livros "Grandes expedições à amazônia brasileira" e "A importância do ato de ler" de Paulo Freire, onde a maior parte de cada página é retirada e elas apresentadas criando camadas e interelações entre si.












DEVIR PAISAGEM


Cristina Ataide, Liana Nigri, Luzia Simons, Marcelo Moscheta, Wirawasu, Moara
Tupinambá, Patrícia Barbara (Boneca Conceitual), Pedro Vaz, Renata Cruz,
Renata Pandovan, Tatiana Arocha, Vera Mantero.

Pode-se escolher fechar os olhos, bloquear os sentidos, negar os fatos, mas as mudanças, em
curso, na terra, estão a tomar os nossos espaços, mentes e esperanças. O gigantesco impacto
das ações humanas nos ecossistemas, está a provocar um novo regime climático muito menos
propício à vida, como a conhecemos. Essa agitação no tempo/espaço terrestre obriga-nos a
pensar novas maneiras de interagir e coexistir com os ambientes naturais.

Devir Paisagem, apresenta um conjunto de práticas artísticas a respeito da noção expandida de
“natureza” e do pensamento ambiental, explorando a construção de novas realidades sensíveis
a partir da negociação com as diferentes agências que moldam o mundo e, em diálogo, com as
teorias pós-coloniais, feministas e biocentradas. Uma visão cosmopolítica da paisagem que
considera os diferentes seres, vivos e não vivos que transformam o planeta.

Se a natureza é discursivamente construída, como sustenta Foucault, precisamos expandir a
nossa capacidade sensível e linguística para compreender e ressignificar o nosso conhecimento
sobre os ecossistemas naturais. Alargar os conceitos e as ideias a partir de uma lógica plural e
circular, fundamentada nas diversas formas de existir e habitar o mundo. Nesse sentido, Devir
Paisagem é campo de possibilidades, onde a paisagem nem é determinada pelo aspecto
geográfico da natureza, nem é determinada pela cultura humana, mas é fruto da justaposição
do indivíduo e da vida que o habita. A paisagem aqui é composição, é espaço que se constrói de
forma coletiva, é entrelaçamento entre as construções cognitivas, culturais, biológicas e
geológicas, entre a multiplicidade de seres e espaços que ocupam a terra.

Se para Richard Long toda a ação na natureza deveria ser mínima e transitória, para os artistas
contemporâneos a arte é fruto de uma consciência ambiental advinda da relação, da
experiência e da troca, onde o artista se opõe à construção binária do sujeito que representa a
natureza objeto. A natureza passa então a ser interpretada sob a ótica dos seres, num exercício
de imaginação empática, rompendo com um regime visual estático, bidimensional, sustentado
pelo olhar. Trata-se de sentir e ser sentido, confabular e ser confabulado, moldar e ser
moldado, onde o artista é parte ativa da teia ecológica da vida.

Dos ventos, das águas, das plantas e dos animais, nasce uma efervescência de processos,
matérias e técnicas poéticas que apresentam outras ontologias possíveis no fazer mundos.
Alguns trabalhos são notóriamente engajados e denunciam a extinção da vida, outros dão
ênfase à percepção sensorial do artista e seus processos afetivos com os ecossistemas, alguns
tentam dar voz aos seres e reivindicam a justiça ambiental, existe ainda a preocupação em dar
sentido aos fenômenos invisíveis e promover a consciência sobre as mudanças climáticas em
curso.

Da vontade transgressora de descolonizar a natureza, nasce um elo invisível que conecta um
grupo de artistas latino-americanos e portugueses, orientados por dimensões cíclicas entre um
passado nostálgico, um presente distópico e um futuro a ser negociado. Artistas que resistem a
Capitaloceno e defendem novas políticas de existência, onde a manutenção e a conservação da
vida está atrelada a uma nova maneira de pensar, projetar e habitar o mundo.


Lilian Fraiji, 2024




terça-feira, 4 de junho de 2024






































 
















fotos Claúdia Tavares

Para sempre até


O todo: a floresta, o planeta, o universo. As partes: as árvores, as folhas, flores

e pequenos frutos, as sementes. Os fragmentos que caem e formam tapetes

de matéria orgânica, alimento para o solo. Respire fundo, entre na floresta, se

perca nela, olhe para cima: uma réstea do céu entre as copas das árvores mais

altas. Sinta o calor do sol filtrado pelas camadas e camadas de galhos, ramos,

arbustos, ninhos de pássaros, trepadeiras, bromélias, orquídeas. Olhe para

baixo, veja os pequenos pedaços, resquícios, retalhos, destroços. Fique de

joelhos, cheire a terra, as folhas, os resíduos que se dissolvem em umidade,

sustento para as raízes, seiva que sobe pelas árvores até chegar ao sol. A luz

e a penumbra, as noites plenas de respirações e mistérios.

Se o mundo cair em pedaços…

Em 2019, as artistas visuais Cláudia Tavares e Renata Cruz participaram de

uma residência artística na Vila de Paranapiacaba, São Paulo, no topo da

Serra do Mar, em plena Mata Atlântica. As leituras e conversas, a vivência e o

fazer artístico sempre renovado no registro das experiências – Renata com

desenhos e aquarelas, com palavras e colagens, com instalações; Cláudia

utilizando-se da fotografia, do vídeo e da apropriação de elementos da

natureza – serviram de semente para a elaboração deste projeto, selecionado

pela Galeria Ibeu em seu edital de 2020.

“O mundo cai em pedaços, mas só aos pedaços se constrói algo”, a frase da

escritora uruguaia Fernanda Trías descreve o fazer das artistas, inventando um

novo mundo com suas memórias e seus registros da floresta.

Os desenhos de Renata, de sua série “Para sempre um dia”, saltam das

paredes e se unem, arquitetando “árvores”, criando caminhos entre os quais o

espectador pode passear e fazer suas descobertas. As fotografias e os objetos

que Cláudia recolhe e ressignifica se espalham pelas paredes, como corpos

celestes ancorados a um horizonte de palavras, os “até”.

As artistas trouxeram vívidas, intensas, em seus corpos e em seus trabalhos,

as memórias da imersão na Mata Atlântica, a sensação da perenidade do

ecossistema e da regularidade de seus ciclos, mesmo sob a ameaça crescente

do homem-civilizado-predador. São memórias que persistem e são

reencontradas por elas em seus afazeres cotidianos, em suas cidades –

Cláudia, no Rio de Janeiro; Renata, em São Paulo e Santos – em suas casas e

ateliês, como uma realidade paralela em meio ao cinza das metrópoles e, mais

que isso, como uma visão de esperança.


Com sensibilidade e esmero, as artistas nos convidam a entrar neste mundo

que construíram e que respira, vivo, no espaço expositivo – e é interessante

lembrar que a galeria fica a uma pequena caminhada de trilhas que nos levam

à Floresta da Tijuca, a terceira maior floresta urbana do mundo, totalmente

reconstruída no século XIX após ser arrasada pela exploração agrícola sem

planejamento.

Talvez ainda seja possível?, as artistas nos perguntam e nos desafiam: a partir

destes fragmentos trazidos da floresta em suas bagagens e em suas memórias

e que “teceram na relação”, na vivência – que cada um de nós possa

(re)construir o todo, a floresta, o planeta, os infinitos universos.


Jozias Benedicto

Escritor, artista visual e curador

Abril de 2024