Grandes expedições à amazônia brasileira participa da exposição Devir Paisagem (com Cristina Ataide, Liana Nigri, Luzia Simons, Marcelo Moscheta, Wirawasu, Moara Tupinambá, Patrícia Barbara (Boneca Conceitual), Pedro Vaz, Renata Pandovan, Tatiana Arocha, Vera Mantero, e curadoria de Lilian Fraiji) no Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, em Évora, Portugal, em junho de 2024. Trata-se de uma colagem sobre páginas recortadas dos livros "Grandes expedições à amazônia brasileira" e "A importância do ato de ler" de Paulo Freire, onde a maior parte de cada página é retirada e elas apresentadas criando camadas e interelações entre si.
DEVIR PAISAGEM
Cristina Ataide, Liana Nigri, Luzia Simons, Marcelo Moscheta, Wirawasu, Moara
Tupinambá, Patrícia Barbara (Boneca Conceitual), Pedro Vaz, Renata Cruz,
Renata Pandovan, Tatiana Arocha, Vera Mantero.
Pode-se escolher fechar os olhos, bloquear os sentidos, negar os fatos, mas as mudanças, em
curso, na terra, estão a tomar os nossos espaços, mentes e esperanças. O gigantesco impacto
das ações humanas nos ecossistemas, está a provocar um novo regime climático muito menos
propício à vida, como a conhecemos. Essa agitação no tempo/espaço terrestre obriga-nos a
pensar novas maneiras de interagir e coexistir com os ambientes naturais.
Devir Paisagem, apresenta um conjunto de práticas artísticas a respeito da noção expandida de
“natureza” e do pensamento ambiental, explorando a construção de novas realidades sensíveis
a partir da negociação com as diferentes agências que moldam o mundo e, em diálogo, com as
teorias pós-coloniais, feministas e biocentradas. Uma visão cosmopolítica da paisagem que
considera os diferentes seres, vivos e não vivos que transformam o planeta.
Se a natureza é discursivamente construída, como sustenta Foucault, precisamos expandir a
nossa capacidade sensível e linguística para compreender e ressignificar o nosso conhecimento
sobre os ecossistemas naturais. Alargar os conceitos e as ideias a partir de uma lógica plural e
circular, fundamentada nas diversas formas de existir e habitar o mundo. Nesse sentido, Devir
Paisagem é campo de possibilidades, onde a paisagem nem é determinada pelo aspecto
geográfico da natureza, nem é determinada pela cultura humana, mas é fruto da justaposição
do indivíduo e da vida que o habita. A paisagem aqui é composição, é espaço que se constrói de
forma coletiva, é entrelaçamento entre as construções cognitivas, culturais, biológicas e
geológicas, entre a multiplicidade de seres e espaços que ocupam a terra.
Se para Richard Long toda a ação na natureza deveria ser mínima e transitória, para os artistas
contemporâneos a arte é fruto de uma consciência ambiental advinda da relação, da
experiência e da troca, onde o artista se opõe à construção binária do sujeito que representa a
natureza objeto. A natureza passa então a ser interpretada sob a ótica dos seres, num exercício
de imaginação empática, rompendo com um regime visual estático, bidimensional, sustentado
pelo olhar. Trata-se de sentir e ser sentido, confabular e ser confabulado, moldar e ser
moldado, onde o artista é parte ativa da teia ecológica da vida.
Dos ventos, das águas, das plantas e dos animais, nasce uma efervescência de processos,
matérias e técnicas poéticas que apresentam outras ontologias possíveis no fazer mundos.
Alguns trabalhos são notóriamente engajados e denunciam a extinção da vida, outros dão
ênfase à percepção sensorial do artista e seus processos afetivos com os ecossistemas, alguns
tentam dar voz aos seres e reivindicam a justiça ambiental, existe ainda a preocupação em dar
sentido aos fenômenos invisíveis e promover a consciência sobre as mudanças climáticas em
curso.
Da vontade transgressora de descolonizar a natureza, nasce um elo invisível que conecta um
grupo de artistas latino-americanos e portugueses, orientados por dimensões cíclicas entre um
passado nostálgico, um presente distópico e um futuro a ser negociado. Artistas que resistem a
Capitaloceno e defendem novas políticas de existência, onde a manutenção e a conservação da
vida está atrelada a uma nova maneira de pensar, projetar e habitar o mundo.
Lilian Fraiji, 2024
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