terça-feira, 4 de junho de 2024






































 
















fotos Claúdia Tavares

Para sempre até


O todo: a floresta, o planeta, o universo. As partes: as árvores, as folhas, flores

e pequenos frutos, as sementes. Os fragmentos que caem e formam tapetes

de matéria orgânica, alimento para o solo. Respire fundo, entre na floresta, se

perca nela, olhe para cima: uma réstea do céu entre as copas das árvores mais

altas. Sinta o calor do sol filtrado pelas camadas e camadas de galhos, ramos,

arbustos, ninhos de pássaros, trepadeiras, bromélias, orquídeas. Olhe para

baixo, veja os pequenos pedaços, resquícios, retalhos, destroços. Fique de

joelhos, cheire a terra, as folhas, os resíduos que se dissolvem em umidade,

sustento para as raízes, seiva que sobe pelas árvores até chegar ao sol. A luz

e a penumbra, as noites plenas de respirações e mistérios.

Se o mundo cair em pedaços…

Em 2019, as artistas visuais Cláudia Tavares e Renata Cruz participaram de

uma residência artística na Vila de Paranapiacaba, São Paulo, no topo da

Serra do Mar, em plena Mata Atlântica. As leituras e conversas, a vivência e o

fazer artístico sempre renovado no registro das experiências – Renata com

desenhos e aquarelas, com palavras e colagens, com instalações; Cláudia

utilizando-se da fotografia, do vídeo e da apropriação de elementos da

natureza – serviram de semente para a elaboração deste projeto, selecionado

pela Galeria Ibeu em seu edital de 2020.

“O mundo cai em pedaços, mas só aos pedaços se constrói algo”, a frase da

escritora uruguaia Fernanda Trías descreve o fazer das artistas, inventando um

novo mundo com suas memórias e seus registros da floresta.

Os desenhos de Renata, de sua série “Para sempre um dia”, saltam das

paredes e se unem, arquitetando “árvores”, criando caminhos entre os quais o

espectador pode passear e fazer suas descobertas. As fotografias e os objetos

que Cláudia recolhe e ressignifica se espalham pelas paredes, como corpos

celestes ancorados a um horizonte de palavras, os “até”.

As artistas trouxeram vívidas, intensas, em seus corpos e em seus trabalhos,

as memórias da imersão na Mata Atlântica, a sensação da perenidade do

ecossistema e da regularidade de seus ciclos, mesmo sob a ameaça crescente

do homem-civilizado-predador. São memórias que persistem e são

reencontradas por elas em seus afazeres cotidianos, em suas cidades –

Cláudia, no Rio de Janeiro; Renata, em São Paulo e Santos – em suas casas e

ateliês, como uma realidade paralela em meio ao cinza das metrópoles e, mais

que isso, como uma visão de esperança.


Com sensibilidade e esmero, as artistas nos convidam a entrar neste mundo

que construíram e que respira, vivo, no espaço expositivo – e é interessante

lembrar que a galeria fica a uma pequena caminhada de trilhas que nos levam

à Floresta da Tijuca, a terceira maior floresta urbana do mundo, totalmente

reconstruída no século XIX após ser arrasada pela exploração agrícola sem

planejamento.

Talvez ainda seja possível?, as artistas nos perguntam e nos desafiam: a partir

destes fragmentos trazidos da floresta em suas bagagens e em suas memórias

e que “teceram na relação”, na vivência – que cada um de nós possa

(re)construir o todo, a floresta, o planeta, os infinitos universos.


Jozias Benedicto

Escritor, artista visual e curador

Abril de 2024

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